segunda-feira, 11 de julho de 2011

Le conte.

O portão abriu rangendo, sentia a ferrugem nos meus dedos frios. A névoa cobria o ar, conseguia ver a minha própria respiração a flutuar e os meus sonhos pareciam todos alcançáveis naquela noite. Percorri lentamente o percurso até a porta de madeira, aproveitando cada segundo daquele ar frio de Inverno.
Era a casa dos sonhos, dizia na tabuleta pendurada na parede de pedra, senti a maçaneta dourada a abrir, como se tudo em mim abrisse quando tocava nela. A casa cheirava a mofo, o pó e o abandono cobriam o ar. Percorri o corredor alcatifado, observando cada detalhe que me rodeava,  não eram apenas quadros que cobriam as paredes, eram memórias, memórias de tempos nunca vividos, nunca tocados apenas sentidos. Parei a meio do corredor, havia uma sala repleta de coisas nunca vistas, pessoas invisíveis dançavam ao som de uma música nunca ouvida, a luz dessa sala ofuscava-me os olhos, era tudo tão brilhante, as pessoas tão pálidas e mesmo assim nunca visíveis, nunca tocáveis. Sentei-me no sofá mais próximo, ninguém parecia reparar na minha presença, bebiam chá, conversavam, riam-se e a minha presença ali era nada mais que pó arrastado pelo vento.
Resolvi dançar ao som da música que não se ouvia, resolvi beber o que não existia e saborear o que não tinha sabor. Os sonhos eram belos na casa dos sonhos, eram vistos mas não vividos, eram sentidos mas não tocáveis. Um paradoxo de vidas, de realidades.
Diziam que quem entrasse nunca saía, os nossos sonhos mais íntimos estavam à nossa frente e levavam nos à loucura . Então, de repente, tive um vislumbre da realidade, apenas durante um breve segundo eu vi, não existia pessoas mágicas e brilhantes à minha volta, era tudo negro sem luz e milhares de corpos mortos cobriam a sala, tentei fugir mas quanto mais tentava fugir mais pessoas mágicas me cobriam o caminho, vi quem mais desejava ver, provei o que mais desejava provar, senti o que mais desejava sentir e tudo parecia em vão. Só queria conseguir fugir dos meus sonhos, o corredor já não era um corredor e sim uma floresta, um labirinto sem fim e seres mágicos lindos, perfeitos cantavam para mim, seduziam-me, acabaria por morrer ali, nos meus sonhos.
O cenário voltou a mudar, era uma sala com um piano que tocava uma melodia que me prendia de tal forma, a nostalgia arrancava-me aos poucos. Será possível os nosso sonhos matarem-nos? Levarem-nos e prenderem-nos a um mundo totalmente diferente ao ponto de não conseguirmos distinguir o real do irreal?
Um rapaz apareceu agarrou-me, dançou comigo, não conseguia parar de dançar, poderia morrer ali, naquele momento já nada importava, estava a ser arrastada pela minha própria fantasia, pela minha própria criação.
Outro vislumbre, a realidade novamente, dançava sozinha, não havia música alguma e novamente milhares de corpos mortos no chão. Larguei o rapaz e fugi pela porta mais próxima, desci as escadas a correr e quanto mais descia mais as coisas a minha volta eram irresistíveis, havia de tudo, tudo o que não conseguimos imaginar, o que está para lá das nossas mentes, para lá dos vossos desejos mais desejados.
No fim das escadas estava um ringue de patinagem no gelo, como eu gostava de patinar no gelo, já tinha os patins calçados e um vestido lindo, branco, cobria-me o corpo.
Conseguia patinar de todas as maneiras, fazia piruetas, coisas que só alguém profissional alguma vez faria, este corpo não era meu, era sonho. Tudo ali, era um sonho, quanto mais me levava por eles mais difícil era conseguir resistir-lhes, então outro vislumbre, novamente pessoas mortas por todo lado.
Sempre que parecia estar a cair nos meus sonhos, a realidade alcançava-me e apenas eu poderia escolher o caminho a seguir, viver até morrer nos meus sonhos irreais ou seguir a dura realidade?
Fugi, não sei por onde, mas fugi. Fugia de olhos fechados, não conseguia ver mais os meus próprios sonhos e quanto mais parecia chegar à saída mais eles eram encantadores e de repente nada, de repente já não era nada, como é que algo tão belo passa a nada? Era a porta, a porta de saída, estava a menos de 5 metros. Dei um passo e então os pesadelos apareceram assustando-me, aterrorizando-me, sentia a insanidade a invadir-me, tinha o meu eu contra o meu outro eu frente a frente, podia deixar-me levar, pelos meus olhos verdes, pelo meu cabelo loiro e ficar ali a ver memórias do meu passado, a arrancarem-me aos poucos, nada parecia existir para além de aquilo, tinha de percorrer 5 metros de memórias aterrorizadoras. Eram apenas 5 metros - pensei. Mas nesses 5 metros eu acabaria por nunca mais ser a mesma.

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