sábado, 2 de março de 2013

Encontro com o lobo Ȣ


Eu não digo nada de nada, digo que te quero ouvir mas não te oiço - tu ouves todo o meu desespero infernal - ouves todos os dias - o quanto me apetece esventrar-me a mim própria e todo o amor platónico que eu e a morte partilhamos, o nosso amor platónico é mutuo. Tens ciúmes, então resolves agarrar-me o braço sempre que tens medo que eu caia - a vida precisa mais de ti do que a morte - mentes.
Um dia fui ver da tua condição, faz de ti manipuladora e esperes que eu confie em ti. És insana e escondes, negas a todo o teu ser que não existem berros dentro de ti quando estás ao pé de mim - eu ocupo todo o espaço, derramo petróleo no nosso quarto e cuspo sangue pela casa toda...
Peço-te que me rasgues - nunca me deixas pegar na lamina - os teus cortes são tão bonitos, alinhados e branquinhos, com a profundidade certa, tudo neles muito organizadinho. Os meus parece que alguém andou a tentar arrancar a pele insanamente com uma faca, uns vermelhos, outros brancos, bordô talvez... Desalinhados - obliquas em todas as direcções com profundidades diferentes. Rasgas-me com todo o amor que tens, fico a sangrar durante horas, mas tu estancas a ferida, és a minha enfermeira pessoal. Conseguimos ver as veias, eu peço-te sempre para me amares profundamente.
Comemos com um finalmente te vejo jantar praticamente todos os dias - para tu no fim dizeres que nunca me vês. Mentes. A tua condição cega-te, exaltas-te sem razão mas quem sou eu para falar, não faço mais nada sem ser berrar.
Saímos, escondes-te dentro do teu casaco porque não queres realmente ver as pessoas -  elas não gostam de ti, quanto mais de mim... Acabamos sempre em casa debaixo dos cobertores depois de me perguntares se quero ver um filme ao qual eu respondo sempre não. Peço-te para leres para mim, não gostas, não gostas de ler em voz alta para mim, se for em inglês nem aceitas - se eu soubesse espanhol pedia-te sempre. quero que me ensines francês mas tu finges que pouco sabes.
Eu berro, insanamente por todo o espaço, tu achas piada, sou capaz de ficar a berrar o dia todo só por ti.   Chegas a casa e eu não podia estar mais despida na pior posição de sempre, fodemos imenso, nunca fodi tanto na minha vida, com a minha quantidade de medicação e a depressão sempre no auge pouco resta para vontade sexual, mas tu lá a descobres - a tua pele arde na minha. Acordas de manhã e eu espero te de quatro na cozinha. Raramente fazemos amor - dizes tu. Como se foder não fosse amor. Parece que tens o diabo no corpo.
Toda a nossa vida sexual é maravilhosa devido também à tua condição, nisso a tua condição é das melhores, é tão boa que eu não acredito que não me traias. Tens que me trair, se não me trais eu espero que o faças, quero imenso que me traias, adoro passar pelos teus ex amores, todos eles belos e loirinhos com olhos azuis. A tua ideia de beleza não é a melhor. Para ti sou a mais gira de todas - até nisso mentes.
Arranjas desculpas para não me ver, não acredito que haja imprevistos - arranjas desculpas para não me ver. Reparo que dizes sempre 5 minutos quando vais demorar uma hora, não gosto de ti assim, mentes sempre em detalhes, em pequenas coisas e dizes que as pessoas ficam mais felizes iludidas, até nisso mentes. Não sou feliz iludida mas que tu me iludes, eu sei que iludes.
Amo-te, não. Eu odeio-te, odeio-te porque não existe amor em mim sem ódio, tu consegues deixar-me louca ao ponto de te chamar todos os dias para me beijares.
Digo que vou fugir, que vou planear a minha vida com outra pessoa - nesse momento dizes que já não te amo. Amo, amo-te sempre e quero-te trair da mesma maneira como também quero que me traias. Não chegamos a nenhum consenso e acabamos por ser fieis.
Somos sempre fieis.


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